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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Linfomas foliculares Bcl2-negativos

A aplicação imunoistoquímica do anticorpo anti-Bcl2 (clone 124, o mais usado) é, na maior parte das vezes, útil e suficiente no diagnóstico do Linfoma Folicular. Sua positividade nos centros germinativos é muito contrastante com casos de hiperplasia folicular reacional que são sempre Bcl2 negativos. Entretanto, são descritos casos de Linfoma Folicular Bcl2-negativos (ao menos 10% dos casos) e o motivo da tal negatividade para o imunomarcador Bcl2 pode ser atribuído (a) à sensibilidade do clone 124; (b) a ausência do rearranjo t(14;18), característico da neoplasia.

Há clones diferentes para imunomarcadores semelhantes. Na hematoncologia é bem conhecida a baixa sensibilidade de marcadores fabricados anteriormente ao SP4 para a reação da Ciclina-D1 no diagnóstico do Linfoma do Manto. A possibilidade de falso-negativo do clone 124 no Linfoma Folicular, entretanto, é menos comentada e essa possibilidade pode ser contornada em alguns casos com a utilização complementar do clone E17. Nos casos tanto 124 e E17 negativos, o raciocínio retorna para a questão da translocação t(14;18).

O gene que codifica a proteína Bcl2 é um oncogene (logo, existe normalmente) e possui uma função anti-apoptótica (contrabalanceada pelo gene BAX, da mesma família). O Bcl2 regula negativamente a apoptose e, em sua função normal, impede que células entrem em morte programada (é normalmente negativo, portanto, em centros terminativos reacionais). Sua alteração genética ocorre justapondo o gene BCL2 ao gene que produz a cadeia pesada das imunoglobulinas (@IGH). A alteração além de resultar em hiperexpressão da proteína nas células (detectável pela imunoistoquímica), também concede vantagem proliferativa aos clones de linfócitos mutados. Nesse ponto, vale lembrar que linfomas agressivos ditos double-hit apresentam como opção de segunda alteração gênica a mutação do BLC2 e, portanto, com características antiapoptóticas além da vantagem proliferativa concedida pela primeira mutação (no locus MYC/8q24).

A translocação t(14;18) é a principal alteração relacionada à hiperexpressão do Bcl2. Entretanto, observam-se linfomas foliculares que não apresentam tal translocação e a etiopatogênese nestes casos não pode ser explicada com outros argumentos. Mais importante na prática do patologista, o diagnóstico nestes casos torna-se muito difícil e irá se balizar na morfologia dos agregados linfoides e na exclusão de outros linfomas. Vale aqui também lembrar que os linfomas foliculares primários da pele (ditos centrofoliculares) diversamente, são, na maior parte, Bcl-2 negativos e não mostram a t(14;18).

As fotos abaixam ilustram um caso de linfoma folicular do mediastino recidivado de um paciente adulto. O Bcl2 foi negativo nos dois clones testados (124 e E17) e o teste do rearranjo t(14;18) também foi negativo. O diagnóstico se baseia neste caso na morfologia: arquitetura folicular e células polimorfas (bifenotípicas: ora centroblásticas e ora centróciticas). O CD23 mostra positividade para células além daquelas normalmente positivas nos centros germinativos e também a co-expressão de CD5. O MUM1 foi positiva em subset de linfócitos (vide comentários sobre este marcador em posts posteriores).

Células polimorfas (bifenotípicas: ora centroblásticas e ora centróciticas). Como há uma predominância de centroblastos (concordam?) acho que cabe aqui a classificação 3a da OMS 2008.
CD10+ (vide o mesmo filete nervoso que é demonstrado na foto do HE com algumas células fortemente CD10+). Vejam que a reação do CD10 em linfócitos é quase sempre meio que "desmaiada"(fraca).
CD23 positivo tanto na trama do centro germinativo quanto em células fora desse contexto/localização (vide o mesmo filete nervoso que é demonstrado na foto do HE)
Detalhe de outra positividade do CD23 
 Positividade do CD5 (interessante no Linfoma Folicular - será discutida em outro post)
Positividade para Bcl6 (vide o mesmo filete nervoso que é demonstrado na foto do HE)

PS: 1- Esse caso também foi positivo (em algumas células) para o MUM.1 e tal expressão também será discutida em outro post (porque agora eu vou dormir). Abraços, Fred. 2- Não  hesitem em deixar algum comentário em casos de dúvida! 3- Se quiserem publicar alguma coisa aqui (eu ficaria feliz!) basta me mandar as fotos e o texto no meu email fhcmelo@gmail.com. Pelo menos tentem fazer alguma vez, é um ótimo exercício didático/de aprendizagem. 

sábado, 23 de novembro de 2013

A systematic analysis of commonly used antibodies in cancer diagnostics

G Gremel et al.
A systematic analysis of commonly used antibodies in cancer diagnostics.
Histopathology (2013)

O trabalho se diz (talvez) o primeiro a trabalhar num grande coorte de carcinomas primários e metastáticos para análise da positividade de marcadores imunoistoquímicos de uso comum. Fez-se uso de tissue microarray de 940 amostras. Discuti-se sensibilidade/especificidade /valor preditivo positivo, etc… Tudo bem, apenas não compreendo como se pode iniciar uma análise desse talhe partindo da premissa que os sítios primários das lesões são seguramente desse ou daquele órgão (“only confirmed primary tumours and metastases from known primary tumours were included”) sem referir o que foi usado como “padrão-ouro”: um consenso clínico/patológico? Vai que algum carcinoma ‘confirmed’ de origem primária pulmonar (p.ex) mostra-se CK7-/CK20+/CDX2+ nesse estudo: isso não era para ser cólon desde o início?

De toda forma, segue um resumo das principais ideias:
1- SENSIBILIDADE/ESPECIFICIDADE
ALTA SENSIBILIDADE E ALTA ESPECIFICIDADE: TG, PSA e Cromogranina A
Apenas 3 anticorpos estudados mostraram alta sensibilidade e especificidade:
- TG, PSA e Cromogranina A.
ALTA ESPECIFICIDADE: GCDFP15 (proteína fluida 15 da doença macrocística) quase que só se expressou em casos de carcinoma da mama (alta especificidade) mas expressou em apenas 43% (baixa sensibilidade).
ALTA SENSIBILIDADE: HEPAR1 marcou TODOS os casos de carcinoma hepatocelular, entretanto marcou uma quantidade expressiva de carcinomas de estomago, testículo, pâncreas, cólon, colangiocarcinomas e carcinomas do pulmão.

2- DIFERENÇAS DE EXPRESSÃO EM METÁSTATSES:
O autor identificou diferenças de expressão de marcadores quando comparava o teste nas lesões primárias ou metastáticas. A Napsina-A e o TTF1 (fator 1 de transcrição tireoidiano) DIMINUIRAM sua expressão nas metástases quando comparadas à frequência de expressão no tumor primário. Da mesma forma, os carcinomas metastáticos de origem endometrial mostraram menor frequência de expressão do RP (mas não do RE). Em 135 tumores foi possível comparar o nível de expressão entre tumor primário e metástase sendo que o anticorpo onde a maior variação encontrada foi com o CEA e a menor com a TG.

3- PERFORMANCE DE PAINEIS PARA PULMÃO CÓLON E MAMA:
PULMÃO: TTF1 e NapsinaA
: Um painel com positividade tanto para TTF1 quanto para Napsina-A mostra maior especificidade e VPP para pulmão quando comparado à positividade dos marcadores isoladamente (e a sensibilidade não se altera!). A Napsina-A tem baixa sensibilidade para pulmão mas tem maior especificidade e VPP do que o TTF1. (Isso é interessante porque eu achava que o TTF1 tinha grande especificidade para pulmão). Entretanto, quando se trata de metástase, a positividade dos dois marcadores decresce significativamente.
COLON: CK20, CDX2, CK7
: CDX2 é mais específico e menos sensível para cólon que o CK20. Todos os casos de cólon do estudo marcaram ou para CK20 ou para CDX2. A adição da NEGATIVIDADE do CK7 em especificidade ainda maior mas diminui o VPP. Há autores que indicam o padrão CK7-/CK20+ mas acurado para o diagnóstico de carcinoma de cólon do que CDX2. Apesar de ser benéfico o uso dos três marcadores, o padrão CK7-/CK20+ é um pouco mais sensível e específico para colon do que o CDX2 isoladamente. ("The CK7-/CK20+ immunophenotype is more specific in differentiating colorectal adenocarcinomas from pancreatic and gastric adenocarcinomas than CDX2 expression").
MAMA: MAMAGLOBINA (MGB), GCDFP15 e RE.
: MGB e GCDFP15 não marcam outros tipos de tumor mas aparecem em apenas 50% dos carcinomas mamários. A marcação dos dois juntos é preditor robusto de origem mamária mas isso acontece em apenas 27% dos casos. 78% dos casos de mama foram RE+ mas a especificidade é baixa dado que vários carcinomas de endométrio e ovário também.

4- OUTROS DADOS:
: CKs 5, 18 e 19 não agregam para definição da origem do tumor muito embora a CK19 seja útil para distinção entre hepatocarcinoma e colangiocarcinoma e a CK5 (combinada com p63) seja útil para indicar diferenciação escamosa.
: Alguns anticorpos não informam sobre a linhagem do tumor como o CEA e o CA125. (Apesar da negatividade para CEAp ser referida como improvável para cólon).

EYE FOR AN AI: MORE-THAN-SEEING, FAUXTOMATION, AND THE ENACTMENT OF UNCERTAIN DATA IN DIGITAL PATHOLOGY

  Olho para uma Inteligência Artificial: mais-do-que-ver, pseudo- automação e a instauração de dados incertos na patologia digital